Um festival de cinema para Tuio Becker

Tuio Becker na redação do jornal Zero Hora (foto de Adriana Franciosi)

Poucas pessoas amaram tanto o cinema quanto Tuio Becker. Nascido em Santa Cruz do Sul, pequena comunidade de colonização alemã localizada na região central do Estado, Tuio começou a publicar seus primeiros textos em 1961, ainda em sua cidade natal. Jovem inquieto que era, com vocação para cidadão do mundo e curiosidade intelectual insaciável, em 1963 mudou-se para Porto Alegre, onde ingressou na Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Embora tenha terminado o curso, logo trocaria as pranchas de desenho pela crítica cinematográfica e pelo jornalismo cultural, passando pelas redações de jornais como Correio do Povo, Folha da Manhã e Zero Hora. Sua atuação nesses veículos, interrompida em agosto de 2001, quando decidiu se aposentar, produziu um legado que ainda precisa ser estudado e o coloca entre os intelectuais mais brilhantes de sua geração. Além da crítica, Tuio também dirigiu filmes, entre os quais o longa Heimweh/Nostalgia (em parceria com seu grande amigo Sérgio Silva), trabalhou como ator e publicou livros, incluindo uma pioneira história do cinema gaúcho, lançada em 1986.

Tuio Becker em cena do filme Inverno (1983), de Carlos Gerbase

Assim como Tuio, também nasci em Santa Cruz do Sul, e meu primeiro contato com o cinema se deu através de seus textos. A exemplo dele, também nunca me adaptei à vida pacata do interior, um ambiente pequeno demais para o tamanho das nossas paixões. Em 2003, quando os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer – doença que o levaria a falecer em maio de 2008 – começaram a se manifestar, tive o privilégio de organizar o livro Sublime Obsessão, coletânea de textos esparsos de Tuio, publicada pela Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografa da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre em parceria com a Universidade de Santa Cruz do Sul. Foi um período curto porém intenso, no qual pude conviver mais de perto com ele, escutando suas histórias deliciosas, me divertindo com seu afiado senso de humor e me valendo de sua inesgotável erudição, antes que sua consciência se apagasse definitivamente. Nunca me conformei com sua morte precoce, e hoje, mais do que nunca, lamento que ele tenha partido tão cedo.

Meu querido Tuio, nossa cidade natal mudou muito, e agora não temos mais tantos motivos para falarmos mal dela. Sim, a preocupação com a vida alheia ainda predomina, a Oktoberfest segue sendo seu maior acontecimento cultural e a turma conservadora permanece no poder. Mas veja só, hoje a cidade tem uma universidade que se tornou um centro de efervescência cultural, tem feira do livro, tem teatro, voltou a ter cinemas, conta com uma nova geração de diretores fazendo filmes e, pasme, desde o ano passado realiza seu próprio festival de cinema. E a partir deste ano, o Festival Santa Cruz de Cinema, que começa na segunda-feira, dia 21, e se estende até o dia 25, passa a te homenagear, dando o teu nome a um de seus novos prêmios. Mas deixa eu te falar mais sobre isso.

Fruto de uma parceria entre a Universidade de Santa Cruz do Sul (a mesma que ajudou a publicar teu livro lá em 2003), o Sesc e a produtora Pé de Coelho, o Festival Santa Cruz de Cinema teve sua primeira edição no ano passado. Começou pequeno, mas devido à repercussão positiva por parte do público, dos realizadores e da imprensa, já em sua segunda edição o festival mostra uma ampliação de seu alcance – em 2018, foram 538 filmes inscritos, sendo selecionados 15 para a mostra competitiva nacional; este ano o número de inscritos aumentou para 613, de 22 estados diferentes, com 18 filmes na competição nacional. Mas a maior novidade é mesmo a criação do Prêmio Tuio Becker, que, nas palavras dos organizadores, é dedicado “a artistas relevantes e representativos do cinema” e, nesta sua primeira edição, será entregue ao ator Leandro Firmino, o inesquecível Zé Pequeno de Cidade de Deus (2002). Imagina só essa, Tuio. O Zé Pequeno vai te levar para casa! E depois dele, tantos outros mais.

Com ares pasolinianos em O Negrinho do Pastoreio (1973), de Antônio Augusto Fagundes, outra de suas investidas como ator

Quem te conheceu sabe bem que essa coisa de homenagem não combinava muito contigo, o mais discreto e elegante dos homens. Se ainda estivesses por aqui, é certo que iríamos pegar juntos o ônibus para Santa Cruz com um único objetivo: reencontrar a família e os amigos, ver filmes e mais filmes e depois virar a noite conversando sobre eles.

* Texto originalmente publicado no caderno Doc do jornal Zero Hora, em sua edição de 19/20 de outubro de 2019.

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