Helena Ignez, a anti-musa

Helena Ignez em A Família do Barulho (1970), de Julio Bressane

Em 1959, o curta experimental Pátio, assinado pelo jovem realizador baiano Glauber Rocha, marcaria o início da trajetória artística de uma atriz que inventou uma nova forma de interpretação cinematográfica no país. Os movimentos sinuosos de Helena Ignez sobre um piso em forma de tabuleiro de xadrez, no filme de estreia deste que hoje é considerado nosso maior cineasta, não apenas representam a chegada do cinema moderno no Brasil, mas também anunciam o fim da empostação teatral consagrada pela escola de atores do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, então dominante em nossos palcos e telas. Algo que logo será confirmado por sua performance em O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, filme no qual, ao lado de Paulo José, ela irá estabelecer definitivamente um outro padrão de atuação no cinema brasileiro, sintonizado com a efervescência cultural e criativa dos anos 60.

Antes de protagonizar o clássico O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, filme que consolidou sua imagem como musa do cinema de invenção, Helena Ignez já havia comprovado seu talento em obras marcantes como A Grande Feira (1961), de Roberto Pires, O Assalto ao Trem Pagador (1961), de Roberto Farias, O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, Cara a Cara (1965), de Julio Bressane, e o já citado O Padre e a Moça. No entanto, é preciso sublinhar que somente a impressionante galeria de personagens a que deu corpo em colaboração com Sganzerla – Janet Jane, Ângela Carne e Osso, Sônia Silk… – já desautoriza essa definição equivocada de Helena como “musa” de determinado diretor ou movimento. Afinal, uma musa não pensa, uma musa não cria, uma musa não tem autonomia, e isso é todo o contrário daquilo que Helena sempre imprimiu em cada um de seus trabalhos. A anti-musa por excelência, Helena Ignez é um corpo elétrico, em explosão criativa constante. Uma atriz dialética, na mais perfeita acepção do termo, como o mestre Bertolt Brecht lhe ensinou.

Em 2005, com o curta A Miss e o Dinossauro, no qual revisita o período breve e intensamente criativo da produtora Belair, Helena passa a dirigir seus próprios filmes, assumindo um protagonismo autoral que sempre esteve presente nas suas colaborações com outros realizadores, em especial em suas parcerias com Sganzerla e Bressane. Em 2007, assina seu primeiro longa, o brechtiano Canção de Baal, inventiva recriação de Baal, texto de estreia do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, uma de suas maiores influências intelectuais. A presença de Brecht volta a se manifestar, já no título, em Luz nas Trevas (2010), continuação de O Bandido da Luz Vermelha, sobre um roteiro inédito de Sganzerla, que morreu sem conseguir realizá-lo.

Quando muitos outros pensariam em se aposentar ou pelo menos diminuir seu ritmo de trabalho, Helena se lança num período de produção intensa. Faz teatro, assina filmes originalíssimos, irreverentes e politicamente engajados – Poder dos Afetos (2013), Ralé (2016), A Moça do Calendário (2017) –, e colabora tanto com uma série de jovens curta-metragistas quanto em longas de diretores mais experientes como Ricardo Miranda (Paixão e Virtude/2014) e Cristiano Burlan (Antes do Fim/2017), este ao lado de Jean-Claude Bernardet.

Em sua 19ª edição, a Goiânia Mostra Curtas reverencia, celebra e homenageia Helena Ignez, “a mulher da luz própria”, como tão bem sintetiza o título do belo documentário assinado por sua filha Sinai Sganzerla, que resgata o percurso pessoal e criativo desta artista imensa.

* Texto produzido especialmente para o catálogo da 19ª edição da Goiânia Mostra Curtas, realizada entre 8 e 13 de outubro de 2019, que teve Helena Ignez como uma de suas homenageadas.

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