Os favoritos de Almodóvar

Em 2006, o espanhol Pedro Almodóvar foi objeto de uma grande homenagem na Cinemateca Francesa, em Paris. Além de uma retrospectiva integral de seus filmes, o diretor também foi tema de uma exposição e preparou uma Carte Blanche, selecionando 29 de seus filmes favoritos para serem exibidos no templo supremo da cinefilia mundial.

Esta “carta branca” incluiu diversos títulos citados ao longo da filmografia de Almodóvar, que, à época, estava lançando Volver, o 16º longa-metragem de sua carreira.

Abaixo a lista dos favoritos de Almodóvar naquele momento, seguida por pequenos comentários do diretor sobre algumas dessas obras que integram o seu panteão cinéfilo (extraídos do programa da Cinemateca Francesa):

Então é isso. A próxima vez que alguém pedir dica de série na Netflix, respire fundo três vezes e passe adiante a listinha de Almodóvar. Esse aí entende mesmo do riscado.

“Meus filmes são repletos de filmes. Há sempre uma televisão que os exibe ou um cinema onde vão meus personagens. Todos os filmes que aparecem nos meus filmes são meticulosamente escolhidos, eles fazem parte do roteiro, eles desempenham um papel ativo. Não são homenagens a seus realizadores, mas sim roubos, eu me aproprio de seus filmes em benefício da história que eu conto.

Quando eu vou ao cinema e o filme me interessa, suas imagens se tornam parte integrante da minha vida, da minha experiência, mesmo que eu seja apenas um mero espectador. Esta Carta Branca apresenta todos os filmes que aparecem nos meus filmes e explica as razões pelas quais eu os escolhi. Há também alguns filmes que têm alguma relação com a minha filmografia ou que me serviram de referência enquanto eu escrevia ou filmava. E enfim eu escolhi alguns outros simplesmente porque adoraria revê-los. Eu os deixo então saborear.”

Pedro Almodóvar

Os Filmes:

Pacto de Sangue, de Billy Wilder (1944)

Aurora, de F. W. Murnau (1927)

Meia-Noite, de Mitchell Leisen (1939)

A Besta Humana, de Jean Renoir (1938)

Céline e Julie Vão de Barco, de Jacques Rivette (1974)

Desejo Humano, de Fritz Lang (1954)

Duelo ao Sol, de King Vidor (1946)

Essa Mulher, de Mario Camus (1969)

A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz (1950)

As Mulheres, de George Cukor (1939)

O Homem Ferido, de Patrice Chérau (1983)

Vampiros de Almas, de Don Siegel (1956)

Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954)

Horas de Desespero, de William Wyler (1955)

Imitação da Vida, de Douglas Sirk (1959)

Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger (1947)

Noite de Estreia, de John Cassavetes (1977)

Os Amores de Pandora, de Albert Lewin (1951)

Amar Foi Minha Ruína, de John M. Stahl (1945)

Pink Flamingos, de John Waters (1972)

Quem é Polly Maggoo?, de William Klein (1965)

Ricas e Famosas, de George Cukor (1981)

Rocco e seus Irmãos, de Luchino Visconti (1960)

Cúmplice das Sombras, de Joseph Losey (1951)

Sonata de Outono, de Ingmar Bergman (1978)

Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel (1955)

No Silêncio da Noite, de Nicholas Ray (1950)

A Tortura do Medo, de Michael Powell (1960)

Wanda, de Barbara Loden (1970)


Alguns comentários de Almodóvar sobre seus favoritos:


As Mulheres, de George Cukor
 
“Cukor foi um gênio no tratamento das personagens femininas.”


Essa Mulher, de Mario Camus
 
“Melodrama hiperbólico, pontuado por canções, antologia do kitsch espanhol, a serviço de Sara Montiel, a maior atriz do nosso cinema entre os anos 50 e os anos 70.”
.


Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger
 
“Powell, sozinho ou com Pressburger, é um dos meus mestres. Em todos os meus filmes, eu peço ao diretor de fotografia que tome como referência a paleta de cores da fotografia de Jack Cardiff.”


Meia-Noite, de Mitchell Leisen
 
“Perfeita ilustração da screwball comedy, ou comédia maluca. O melhor antídoto contra o tédio.”


Johnny Guitar, de Nicholas Ray
 
“Pouco importa o gênero que ele aborde, Nicholas Ray é sempre original. Neste western exemplar, duas das pistolas são empunhadas por mulheres loucas de amor.”
 


Amar Foi Minha Ruína, de John M. Stahl
 
“O filme mais brutal sobre a paranóia do ciúme. É também um filme que alia dois gêneros que eu adoro e parecem tão distantes e diferentes, o melodrama e o thriller.”


A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz
 
“O título do filme Tudo Sobre Minha Mãe vem do título original de A Malvada, All About Eve. Os dois filmes falam de mulheres e de atrizes. De mulheres que se confessam e mentem no camarim de um teatro, transformado em um sancta sanctorum do universo feminino.”


Cúmplice das Sombras, de Joseph Losey
 
Cúmplice das Sombras é um filme atípico na carreira de Joseph Losey. É um filme da série negra que trata de um culpado diante de si mesmo, face a sua consciência. Uma perspectiva sobre a culpa que eu jamais vi nesse gênero cinematográfico.”
 


O Homem Ferido, de Patrice Chéreau
 
“Novamente, ‘o desejo’ enquanto abalo interior que domina inteiramente os indivíduos. O filme de Chéreau merece ser visto antes de mais nada para admirar o olhar faminto, curioso e aflito de Jean-Hugues Anglade, assim como o selvagem objeto de seu desejo, o igualmente maravilhoso Vittorio Mezzogiorno. A Lei do Desejo e O Homem Ferido ilustram de maneira notável os personagens condenados pela paixão, antes da época da AIDS.”


Quem é Polly Maggoo?, de William Klein
 
… Polly Maggoo é a quintessência do movimento pop, com uma tomada de consciência.”


Céline e Julie Vão de Barco, de Jacques Rivette

“Um filme que se banha em uma atmosfera feminina, uma espécie de história em quadrinhos em que o acaso é a lógica da narrativa.”


Vampiros de Almas, de Don Siegel

Vampiros de Almas representa para mim uma metáfora evidente da heroína. Eu testemunhei muitos drogados transformados em corpos sem alma, os olhos vazios, o rosto sem expressão, mortos-vivos como os bodysnatchers (ladrões de corpos)”.
 


Sonata de Outono, de Ingmar Bergman
 
“Os eternos problemas mãe-filha, mesmo em Bergman, são quase sempre os problemas pai-filho. No cinema do mestre sueco, as piores crueldades se manifestam sempre no seio da família.”
 

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