Tuio Becker apresenta Almodóvar

No texto sobre Dor e Glória que postei aqui faço referência a um artigo do crítico gaúcho Tuio Becker (1943-2008) publicado no jornal Universitário em novembro de 1987. Até prova em contrário, “Apresentando Almodóvar” foi o primeiro texto produzido no Rio Grande do Sul sobre o diretor espanhol. Atendendo a pedidos, reproduzo o pioneiro artigo de Tuio, responsável por apresentar Pedrito aos cinéfilos gaúchos.

O resto é história.

Apresentando Almodóvar

Pedro Almodóvar. Para o público brasileiro o nome nada significa. Na Espanha, entretanto, Almodóvar tem o mesmo significado para a geração pós-moderna que, por exemplo, o nome de Carlos Saura, para aquela da resistência cultural ao franquismo. O primeiro contato do público brasileiro com o cinema praticado por Pedro Almodóvar deu-se no FestRio do ano passado, através de Matador, quinto filme do cineasta, também incluído na Mostra de Cinema Espanhol, promovida pelo Clube de Cinema de Porto Alegre no Ponto de Cinema/SESC. Almodóvar começou sua carreira, em 1980, com Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón.

Página do jornal Universitário com o artigo de Tuio Becker, depositada no acervo da Cinemateca Capitólio

Atração constante das sessões da meia-noite dos cinemas de “arte e ensaio” de Madri e Barcelona, onde seus filmes Laberinto de Pasiones (1982) e Entre Tinieblas (1983) se perpetuam por meses em cartaz projetados para um público tão devotado quanto divertido, Almodóvar passou a ser considerado pela crítica mais séria da Espanha somente a partir de seu quarto filme, Qué he Hecho Yo para Merecer Esto? (1984), que no inverno de 1985 mereceria um lançamento de destaque nos circuitos de “arte e ensaio”, que desde então vêm programando seus filmes anteriores com religiosa insistência.

Julieta Serrano como a mãe louca de Matador

Elemento egresso da “movida madrileña”, Almodóvar trabalhou com grupos de música (Alaska e Dinarama) e, entre outras coisas, reivindica o direito de autodestruir-se pelas drogas e assumir a sua sexualidade, “com que e como possa” (entrevista a Cambio 16, março/1985). Não é para menos que chegou ao FestRio precedido pela justificada fama de “o Fassbinder da Espanha”. Bem longe da sisudez dos cineastas espanhóis mais conhecidos, Almodóvar propõe um cinema irreverente, sem abdicar de uma reflexão sobre a condição humana e a ambiguidade do relacionamento social e sentimental das vidas modernas.

Como Fassbinder, o cineasta espanhol tem trabalhado com um pequeno grupo de amigos em que se destacam as atrizes Carmen Maura e Chus Lampreave, e o ator Antonio Banderas. Os três, mais Eusebio Poncela, estão reunidos no mais recente filme de Almodóvar, La Ley del Deseo (1987) – (na verdade, Chus Lampreave não está no elenco de A Lei do Desejo; Tuio provavelmente deve tê-la confundido aqui com Rossy de Palma, outra colaboradora habitual de Almodóvar). Na Espanha, um dos filmes de Fassbinder inéditos no Brasil, Fox (1975), chamou-se La Ley del Más Fuerte, o que lembra sua afinidade com Almodóvar também através do tema, o homossexualismo. Poncela faz o papel de um cineasta homossexual que se envolve com Banderas, um taxi-boy tão ingênuo quanto perigoso.

Cartaz original do primeiro longa de Almodóvar, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão

Mas as semelhanças do cinema de Almodóvar com o de Fassbinder terminam por aí. O racionalismo germânico de Fassbinder cede lugar a um delirante delírio barroco de imagens e situações que fazem de La Ley del Deseo (e dos demais filmes de Almodóvar) algo cujo impacto só se pode avaliar assistindo. As histórias são quebradiças, fugidias, cheias de meios tons e lances agressivos que podem chegar ao que acontece a uma prostituta drogada que se oculta num convento de freiras que mantém um leopardo (sic; na verdade é um tigre) como animal de estimação (Entre Tinieblas) ou às aventuras de uma dona de casa envolvida com o marido, os filhos menores, a sogra e um grupo de nazistas que possuem os diários secretos de Hitler (Qué he Hecho Yo para Merecer Esto?).

Rossy de Palma em A Lei do Desejo

Com seus dois últimos filmes, Matador e La Ley del Deseo, Almodóvar saiu do circuito das produções independentes para merecer os favores das subvenções do Ministério da Cultura com o patrocínio da Rádio e Televisão Espanhola. Especialmente em Matador nota-se uma certa contenção dos delírios de Almodóvar, para narrar a história de dois maníacos fascinados pela morte: uma advogada (Assumpta Serna) e um toureiro (Nacho Martínez). Elementos cômicos pontuam a narrativa, mas o verdadeiro espírito de Almodóvar se reencontra em La Ley del Deseo, onde Carmen Maura (descobre-se lá pela metade do filme) faz um rapaz que muda de sexo para não prejudicar a imagem de seu pai, com quem vivia maritalmente.

Almodóvar em Labirinto de Paixões

Pode? Pois é, nos filmes de Almodóvar tem dessas coisas. O próprio cineasta, vez por outra, aparece em cena, em personagens sublinhados pelo deboche, geralmente homens travestidos de mulher. Orquestrando toda essa parafernália de tendências e intenções, Almodóvar consegue o impossível: fazer filmes que emocionem e que não sejam vistos somente com os olhos curiosos que sua figura, ou os temas abordados, provoquem. Pena que a cinematografia espanhola, como tantas outras, esteja tão distante do mercado brasileiro e que a obra de Almodóvar permaneça (quase) desconhecida.

Tuio Becker

Universitário, Novembro de 1987.

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